sexta-feira, 27 de abril de 2012

Brasil - Bed Stuy é aqui!

Gabriel Egidio do Carmo

Todo Mundo Odeia o Chris” agora está colocado de segunda a sexta-feira, à tardinha, no horário juvenil. Confesso-me um assistente desse seriado. Como telespectador, curto as aventuras do personagem. Mas, como pessoa curiosa desta história de ficção e realidade, considero de extrema importância os elementos ali presentes. Volta e meia, volto ao assunto Chris, pois ele mostra sem medo as verdadeiras faces, do que muitos chamam de democracia racial. 

No seriado há uma clara mostra de diversas situações de racismo vivenciado pelo personagem. O Chris, mesmo na escola, muitas vezes não é aceito pelo simples fato de ser negro. Suas intenções e comportamenos são julgados de forma negativa, muitas das vezes, antes mesmo de tomar qualquer inciativa. É importante salientar as peças cinematográficas e de animação como forma de dar mais dramaticidade aos fatos vivenciados pelo adolescente. 

Em minha humilde opinião, não existe qualquer diferença fundamental entre a situação vivenciada pelo Chris, morador da periferia de Bed-Stuy (Nova York, Estados Unidos), e a de milhares de adolescentes brasileiros moradores de periferia das grandes, médias e até mesmo pequenas cidades. Muda, sim, os locais onde ocorre. Mas, ambos vivenciam as inquietudes da adolescência e a condição árdua de sobrevivência da família. Por isso considero o Chris algo merecedor de muitos estudos e por isso escrevo sobre ele: Chris é um personagem onde ele é quem termina mal (em geral, no fim das histórias o personagem principal acaba bem), mas mesmo assim sempre aprende alguma coisa que serve para a “escola da vida”. 

Esse ponto é original e novo neste seriado. Como representação da realidade, é isso o que cativa o telespectador. Em “Todo Mundo Odeia o Chris”, o personagem principal depois de adulto, conta a história de sua adolescência, ou seja, o seu passado. E assim ocorre. Aquela fase que muitos consideram que já passou e não volta mais é analisada de forma ficcional. Ora, direis, mais que isso outros filmes e seriados já fizeram. É verdade, só que em Chris, o personagem busca compreender a origem do “ódio”, do por quê da sua não aceitação em grande parte da sociedade. Ele bota o dedo na ferida aberta, não cicatrizada. É sensato ao mostrar que nem todos são racistas. E mais sensato ainda ao mostrar personagens que embora neguem, são racistas. 

Mas outros personagens escancaram o ódio ao Chris através de atitudes e estereótipos: socos, pontapés, apelidos depreciativos, brincadeiras e piadas de péssimo gosto, ridicularização de sua traços físicos como cor da sua pele e a textura dos seus cabelos. O adolescente busca contornar a situação, sempre buscando renegar o lugar que a sociedade lhe quer conferir: o de fracasso. 

Que está dizendo o “Chris” por trás do humor, da diferença social e do entretenimento puro? Está dizendo que “ódio” não é a verdadeira doença. Ele é o sintoma no qual a doença se disfarça: o racismo. Só com muita força e espírito coletivo, (e para nós, brasileiros, indo além da simples paranoia de que o Brasil é uma democracia racial), só encarando de frente o racismo presente em nossa sociedade, será encontrado a força capaz de vencer este “ódio” e a harmonia  entre os povos triunfará.

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